quarta-feira, 14 de agosto de 2024

VII

Quando é que começou esta guerra entre gerações? Por que é que até há uns poucos anos não era discutido e agora parece um tema sem fim à vista?

É tão rigorosamente discutido que uma pessoa que nasceu no último ano de uma geração age como se existisse um grande gap geracional para a pessoa que nasceu no ano seguinte apenas porque teoricamente já pertence à geração a seguir; o que é um absurdo, como se fizessem parte de mundos diferentes e não houvesse nada que as unisse.

O que é que define uma geração? Não é aquilo que vivem a nível cultural e sociológico? Não são as crises e as lutas que travam em conjunto?

Falando especificamente de Portugal - apesar de ser uma questão falada por todo o ocidente - tendo em conta que saímos de uma ditadura em meados dos anos 70 e que a transição para uma sociedade ligada ao mundo exterior ainda demorou algum tempo a evoluir, “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa” porque com apenas uma estação de televisão e poucas estações de rádio, a verdade é que todos ouvíamos e víamos o mesmo. A novidade chegava a todos da mesma forma e com a mesma rapidez, e era partilhada por todos porque não havia a abundância e a velocidade que há hoje em dia. Por isso, é normal lembrarmo-nos das mesmas coisas.

Além de que, como tudo chegou muito mais tarde a Portugal por causa da ditadura, os períodos que definem certas gerações noutros países do ocidente, como os EUA, não se podem aplicar a Portugal da mesma forma.

Ainda assim, eu lembro-me de reparar em certas diferenças durante a minha adolescência. Lembro-me de perceber que grande parte das pessoas que tinham nascido no ano a seguir ao meu já tinham interesses muito diferentes. Durante algum tempo, todos sentíamos que o nosso ano era o fim de uma geração, de alguma forma, muito antes de se falar de gerações como se fala hoje em dia. Com o passar dos anos e com a entrada na vida adulta, cheguei à conclusão de que afinal fazia parte de um grupo numa zona cinzenta porque fomos - sem querer - neglicenciados por todas as medidas que foram surgindo de combate a certas crises. Não havia espaço para crescer e dar passos mais concretos na vida adulta mas, também, sempre que se subia o limite da faixa etária que definia, por exemplo, os apoios para os jovens adultos, já éramos velhos de mais para fazer parte desse grupo. Portanto, já não éramos jovens mas também não nos deixavam - ou não tínhamos condições para - ser adultos. De certa forma, acho que continua a ser assim - não somos nem carne nem peixe.

Acho que é natural a necessidade de pertencer a alguma coisa, a uma tribo, a um grupo com que nos identifiquemos. É instintivo. Não queremos estar sozinhos porque precisamos uns dos outros para sobreviver. Hoje em dia, essa necessidade transformou-se numa competição e numa luta de egos. Dizemos coisas como “a minha geração é melhor do que a tua” e passamos muito tempo a sublinhar as diferenças e a definir se a pessoa x ou y pertence ao nosso grupo ou não, como se pertencer a uma determinada geração definisse o nosso carácter ou personalidade. Agora, pertencer a uma geração é como ser de um signo do zodíaco: 

- Se és escorpião tens mau feitio. E, assim, todos os escorpiões têm mau feitio, quer queiram quer não, quer tenham quer não tenham.

Gostava de não ter de ser constantemente confrontada na minha nostalgia com a dúvida dos outros quanto ao direito que tenho em ter certas memórias, principalmente por pessoas que não estiveram presentes na minha infância e adolescência e que as desconhecem quase por completo. 

Discutir gerações desta forma competitiva é, na minha opinião, contra-producente e nada construtivo. Pelo contrário, é só mais uma forma de discordarmos uns dos outros e de entrarmos em pequenas guerras. 

Se calhar, já chega, não? O que é que ganhamos com isso? Até porque grande parte das coisas que são ditas não têm o valor ou a relevância que achamos que têm. Reflectem vazios ou fragilidades, apenas. Nada mais do que isso. E da forma como as coisas estão, vamos precisar muito uns dos outros nas próximas décadas, por isso, mais vale começarmos a abraçar aquilo que nos une ao invés daquilo que nos separa se queremos ter alguma esperança no futuro. 

Um abraço e um beijo a todas as gerações. 

quarta-feira, 29 de maio de 2024

V

Uma coisa de que gosto no envelhecer é a oportunidade do reencontro com alguém que não vemos há muito tempo, como se a vida abrisse a porta e nos convidasse a revisitar um passado tão longínquo que parece ter acontecido noutra vida. 

Por vezes, pode ser uma experiência dolorosa, e uma hipótese de catarse se tivermos maturidade para isso, mas outras vezes é um brinde, um abraço carinhoso que nos conforta e vem validar aquilo que vivemos no passado com essa pessoa. E é desta última que quero falar.

Quero falar das almas companheiras. Aquelas que, por mais voltas que a vida dê, por mais que as circunstâncias nos separem durante anos, quando nos reencontramos temos a confirmação de que há pessoas que existem para nos fazer acreditar que há ligações energéticas que transcendem este mundo.

Basta-me fechar os olhos para viajar até ao dia em que fixámos o olhar um no outro pela primeira vez e nunca mais fomos capazes de desviar. A atracção era tão forte quanto a de dois ímanes opostos. Demorou anos até que a oportunidade de nos aventurarmos em conjunto surgisse, mas aconteceu a um ritmo tão natural que o timing não poderia ter sido melhor. Descobrimos que combinamos como o pão e manteiga combinam - como diz ele. Mas é uma coisa energética e não de interesses. Não estou a falar de um amor romântico.

Não estou a falar de um amor romântico mas, olhando agora para trás, acho, sim, que estou a falar de um tipo de amor, de um amor à nossa medida - livre, honesto, carregado de carinho e respeito. Essencialmente, livre. Um tipo de amor idílico, pacífico, daqueles que nos faz querer tanto que essa pessoa seja feliz que se tivermos de seguir caminhos diferentes, seguimos. E seguimos.

A amizade prevaleceu sempre, os encontros inesperados eram felizes mas o tempo separou-nos.

Perdi-lhe o rasto, chorei, senti-me sozinha nas memórias e entreguei essa dor.

Agora, mais de quinze anos depois da última vez que nos vimos, quis o universo que nos reencontrássemos. O tempo passou por nós mas não passou pelo sentimento que nos uniu. 

É um brinde do universo porque, num momento tão frágil da minha vida, receber a validação daquilo que eu desconfiava é o abraço de que eu precisava. 

As almas companheiras são as bênçãos da vida. Aquelas que em todos os momentos em que estão connosco estão lá para nos fazer acreditar que há coisas maiores do que este mundo.

Por isso, um brinde às nossas almas companheiras. 🥂 

quarta-feira, 22 de maio de 2024

IV

As civilizações acabam e os próximos a desaparecer são os europeus.

Aqui em Portugal estamos a ser escorraçados das nossas terras por culpa de estratégias liberais, de mercados não regulados e em breve deixaremos, também, de poder ir livremente às nossas praias. As praias serão dos milionários estrangeiros que tomarão conta da nossa costa.

Com a escalada da imigração sem medidas que protejam os locais, a miséria é o futuro dos nativos que, sem condições de sustentar famílias, vão ser engolidos por esta onda e eventualmente desaparecer. 

Não há dúvida de que precisamos dos imigrantes para sustentar a nossa economia mas precisamos daqueles que contribuem efectivamente e não dos que vêm somente desestabilizar os mercados tirando condições e qualidade de vida a quem cá está. 

Os espiritualistas - e não só - vão dizer que é karma. Até poderá ser e merecido.

Em muito pouco tempo deixámos de conseguir comprar ou arrendar casas, voltámos a ter de contar trocos ao fim do mês e a depender de (falsas) promoções dos supermercados. 

Como é que se sobrevive a isto? Se calhar não se sobrevive. 

A ignorância está a ganhar terreno.

O protesto pende para ideais que nos vão arruinar ainda mais por falta de vozes mais fortes de quem defende a vida digna.

A única forma positiva que tenho de olhar para isto é: maus tempos formam bons carácteres. Vamos passar por tempos muito difíceis e sentir que vivemos um retrocesso mas daqui daremos um salto evolutivo maior, mesmo que já só chegue a gerações futuras. É um sacrifício que teremos de fazer porque a médio prazo as coisas vão piorar. 

Mas serão estes ignorantes, vítimas da Era da desinformação, os grandes impulsionadores desse salto evolutivo - por necessidade.

Às vezes, os nossos piores inimigos são os nossos melhores professores.

A ginástica que consigo fazer para não deprimir é pensar mais além e no futuro da Humanidade, ou do que sobrar dela, em termos de séculos.

Que seja para um salto evolutivo um dia, então.

Quanto a nós, não temos outro remédio que o de viver o dia-a-dia da forma mais feliz que conseguirmos. E, na minha opinião, é preciso desligar a televisão e as redes e estar com quem nos é querido.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

III

Vou considerar que não foi por acaso que a minha liberdade coincidiu com os festejos dos 50 anos do 25 de Abril. 

Gosto de pensar que há sincronismos que acontecem porque a vida às vezes também é poética. Larguei as máscaras para voltar à vida. E não há melhor festa que a do 25 de Abril para festejar - também - essa liberdade. ❤️

#25deabrilsempre

domingo, 7 de abril de 2024

II

A primeira vez que senti o gânglio foi em 2019. Não tinha queixas de nada e era indolor. Apesar de saber que não havia nada que pudesse ter que causasse um inchaço do gânglio, desvalorizei. Disse para mim mesma que era um quisto e assim me mantive durante dois anos, mas, na verdade, nunca fiquei descansada.

Só ao fim desses dois anos quando notei que o gânglio estava maior é que resolvi agir e, aí, começou uma odisseia de exames e análises que, com uma pandemia pelo meio e, ainda assim, uma certa passividade da minha parte, terminou com um diagnóstico só dois anos depois, em 2023. 

Ao longo desses dois anos, nenhum dos exames e análises que fiz confirmavam malignidade. Não tinha sintomas, as alterações nas análises eram muito subtis, portanto, o resultado da biópsia chegou como uma avalanche.

Agora, quase um ano depois da biópsia, seis meses depois do fim do tratamento, não posso dizer que respire de alívio. 

Expiro baixinho e suavemente de alívio com esperança que não se dê por isso não vá estar a largar foguetes antes do tempo.

É um alívio contido, com restrições, porque estar em vigilância é estar permanentemente atenta a novos sinais e sintomas que possam reaparecer. É pensar constantemente no que é que se fez no passado para que isto pudesse acontecer: foi por ter comido isto? Foi por ter bebido esta água? Foi por stress? Se eu fizer isto ou aquilo vou voltar a ficar doente? Aquilo que senti naquela altura e que desvalorizei seria um sintoma?

Há qualquer coisa que se sente que acaba definitivamente com uma doença destas. Uma esperança ou ânsia ou uma alegria de viver que deixa de existir da mesma forma. Não se relaxa da mesma maneira. Não se bebe um copo de vinho sem pensar na toxicidade do álcool em cada gole. Não se relaxa ao sol mesmo com protector 50. O cabelo é diferente. E quem é aquela pessoa no reflexo do espelho? 

Há um antes e um depois. E o depois carrega uma nuvem cinzenta.

As mazelas de um tratamento, físicas e emocionais, duram tempo de mais para que sintamos que passaram de raspão. São marcas que ficam gravadas na pele, no organismo e nas emoções. 

Há um ano disse que 2023 ia ser um ano incrível e agora, no ano seguinte ao atropelamento que 2023 foi, o meu único desejo é voltar a sentir-me normal e com saúde.

Há um renascimento lento e doloroso e uma certeza de que nada voltará a ser igual. E se isso é bom eu ainda não sei.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

I

Cancro. Uma pequena palavra que carrega uma grande ameaça. Consigo escrevê-la mas ainda não consigo dizê-la.

Mesmo já estando livre dela.

Uma vez disse-a mas baixinho, com medo que alguém a ouvisse. Ou que eu a ouvisse. Perguntaram-me se esta doença é a experiência transformadora de que tantos falam mas não sei se aprendi alguma coisa com ela. Sinto que falhei no teste.

Mas sobrevivi. Parece que a quimioterapia matou o bicho mas levou, também, com ela o pouco que tinha cá dentro. Devia ser pouco porque não sinto nada, só o vazio. E a solidão do vazio.

Sinto-me mais desligada agora do que me sentia antes ou durante o tratamento.

Depois da luta, os dias são ocupados pela dúvida e a única certeza é o que quero deixar para trás.

Falhei no teste? 

Ninguém nos diz o que fazer quando acaba e o mundo espera que tenhamos a resposta para o sentido da vida.

Só quero paz. Paz e prazer e viver devagar. Viver com calma. Viver sem medo. Viver em paz com o ruído que me rodeia, ter um escudo invisível que não deixe entrar nada que me perturbe. 

Tomar as rédeas da minha própria vida.

Tenho pensado em como o termo “lar” nunca foi um lugar de conforto e segurança para mim. Mesmo em adulta, os sítios que escolhi para viver foram uma fonte de ansiedade, de desconforto, de conflito, ruído, incerteza. Nunca me senti em casa em lado nenhum. Nunca me senti em casa com ninguém. Não me sinto em casa e preciso de me sentir em casa. É urgente.

O vazio acorda-me de vez em quando para me cobrar a atenção que não lhe tenho dado. Ando a fugir como posso e sempre que posso. Tento distrair-me com vida para fingir que está tudo bem, que me sinto bem e que a vida é este milagre que sempre ouvi dizer que era.

Li algures, depois de várias pesquisas sobre a vida após o cancro, que a melhor forma de lidar com o desconforto é confrontá-lo até que se torne confortável. Até que esteja confortável com o medo e a incerteza da doença.

O desconforto assalta-me de vez em quando. Aparece sem aviso. É a sensação de ser sugada pelo Espaço, para o Espaço, para o vazio, para o vácuo, para a escuridão, para o desconhecido sem segurança ou máscara de oxigénio.

Não é esta a solidão que eu abraçava antes. Não é esta a solidão que eu temia que me roubassem, aquela de que falava Nietzsche.

Esta solidão é outra. É outra coisa.

Estou desesperadamente à procura de um sentido, de sentir que há vida a viver depois disto, com a mesma esperança que havia antes. Que há coisas novas para experimentar e para aprender, emoções novas para sentir, amores para viver. E será que vou ter coragem para o fazer?

Esta nuvem que não desanda, que está pesada mas não descarrega…

Não há silêncio nem dentro da minha própria cabeça. Tenho mil cigarras dentro do meu ouvido.

Não há sossego que acalme esta inquietação.

Escrevo na esperança de que chegue a catarse.

VII

Quando é que começou esta guerra entre gerações? Por que é que até há uns poucos anos não era discutido e agora parece um tema sem fim à vis...