domingo, 7 de abril de 2024

II

A primeira vez que senti o gânglio foi em 2019. Não tinha queixas de nada e era indolor. Apesar de saber que não havia nada que pudesse ter que causasse um inchaço do gânglio, desvalorizei. Disse para mim mesma que era um quisto e assim me mantive durante dois anos, mas, na verdade, nunca fiquei descansada.

Só ao fim desses dois anos quando notei que o gânglio estava maior é que resolvi agir e, aí, começou uma odisseia de exames e análises que, com uma pandemia pelo meio e, ainda assim, uma certa passividade da minha parte, terminou com um diagnóstico só dois anos depois, em 2023. 

Ao longo desses dois anos, nenhum dos exames e análises que fiz confirmavam malignidade. Não tinha sintomas, as alterações nas análises eram muito subtis, portanto, o resultado da biópsia chegou como uma avalanche.

Agora, quase um ano depois da biópsia, seis meses depois do fim do tratamento, não posso dizer que respire de alívio. 

Expiro baixinho e suavemente de alívio com esperança que não se dê por isso não vá estar a largar foguetes antes do tempo.

É um alívio contido, com restrições, porque estar em vigilância é estar permanentemente atenta a novos sinais e sintomas que possam reaparecer. É pensar constantemente no que é que se fez no passado para que isto pudesse acontecer: foi por ter comido isto? Foi por ter bebido esta água? Foi por stress? Se eu fizer isto ou aquilo vou voltar a ficar doente? Aquilo que senti naquela altura e que desvalorizei seria um sintoma?

Há qualquer coisa que se sente que acaba definitivamente com uma doença destas. Uma esperança ou ânsia ou uma alegria de viver que deixa de existir da mesma forma. Não se relaxa da mesma maneira. Não se bebe um copo de vinho sem pensar na toxicidade do álcool em cada gole. Não se relaxa ao sol mesmo com protector 50. O cabelo é diferente. E quem é aquela pessoa no reflexo do espelho? 

Há um antes e um depois. E o depois carrega uma nuvem cinzenta.

As mazelas de um tratamento, físicas e emocionais, duram tempo de mais para que sintamos que passaram de raspão. São marcas que ficam gravadas na pele, no organismo e nas emoções. 

Há um ano disse que 2023 ia ser um ano incrível e agora, no ano seguinte ao atropelamento que 2023 foi, o meu único desejo é voltar a sentir-me normal e com saúde.

Há um renascimento lento e doloroso e uma certeza de que nada voltará a ser igual. E se isso é bom eu ainda não sei.

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